Manuel Portugal
Manuel Portugal

Não sei se sou eu – Crónica do Professor Manuel Portugal.

Este canal-e.pt é um espaço para a educação e para os professores. Um espaço onde se trocam ideias e se apresentam propostas. Onde se interage, se comunica e se divulga. Se aproxima e se partilha. Mas, entendam que tenho 44 anos, sou português e, em algum momento, escolhi ser professor. Entendam, por isso, que estou profundamente preocupado e este é, também, um espaço onde me sinto à vontade para partilhar preocupações e ansiedades. E, sinceramente, não sei mesmo se sou eu. Se sou só eu.

Se sou eu que ando pessimista e desanimado. Se sou eu que não consigo ver o futuro, o meu futuro e o futuro do país. Se sou eu que tenho pouca esperança que realmente “as coisas” possam melhorar. Se sou eu que não consigo ver a luz ao fundo do túnel, e que dou por mim a pensar que bem fazem os que emigram. Se sou eu que tenho pouca coragem para os seguir. Se sou eu que fico com o estômago meio preso quando vou para a escola e que fico ansioso no domingo com as perspectivas de uma nova semana. O que me incomoda não é a perspectiva de ter os alunos, é o resto.

É possível que seja mesmo eu. Um tonto! Mas, sinto-me enganado, pessimista, e não sei o que fazer. Sinto-me enganado porque, em 1993, decidi seguir a carreira académica e ser professor. Tinha, então, duas certezas: uma é que nunca seria rico, a outra é que teria uma carreira, com metas claras, numa evolução linear, e uma perspectiva de futuro estável. Estava a entrar numa profissão que era basilar ao futuro do país. A evolução parou em 2000 ou por lá perto, tal como o salário – embora a inflação não tenha parado à minha espera – e bem olho para o fundo do túnel a ver se vislumbro a perspectiva de carreira. Enganado na desvalorização do que é ser professor e frustrado por a nossa população não entender o quão importante é a educação e a formação.

Estou pessimista que a falta de ética, talvez corrupção, as falências “insuspeitas” e a dívida que daí resulta, e a má governação ainda corte mais nos salários, nas escolas e no futuro. Dizem que este meu, nosso, é o país dos doutores e engenheiros mas, quando olho à volta não vejo isso. Na realidade, quando procuro nas estatísticas vejo que apenas cerca de 12% da população tem um curso superior. E, isto é ser o país de doutores e engenheiros? Li há uns dias um artigo1, já de 2008 (mas ando atrasado nas leituras), do economista Eugénio Rosa que mostrava como Portugal está tão atrasado em escolaridade comparativamente aos vizinhos da União Europeia. Recupero uma das tabelas desse texto e dou apenas um exemplo da tabela, para facilitar a interpretação: em 1999 a percentagem da população portuguesa com um nível de escolaridade inferior ao 12º ano era 61,2% superior ao da Irlanda, mas em 2005, já tinha aumentado para 111,4%. Ou seja, mesmo ao nível do secundário estamos a perder terreno e a ficar com escolaridade comparativamente menor. Como se justifica então andar a fechar escolas e a passar ideias erradas que já há muita gente com formação em Portugal?

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Fico, ainda, pessimista com o futuro por me parecer que ao nosso povo isso da educação não interessa e, assim, se multiplicam os governantes que tiram (ou não) licenciaturas, que demorammmmmm até concluir a licenciatura. Alguns dizem que isso nem sequer interessa. Mas, a mim interessa, e não consigo antever que um governante sem formação possa ser um bom governante. Por outro lado, vi recentemente umas estatísticas do Brasil (ver figura) que mostrava claramente que há uma relação entre o nível de escolaridade e as intenções de voto. Não faço análises políticas nem tenho preferências sobre se quem ganha as presidenciais no Brasil, se é um presidente ou uma presidenta, mas olhem para os dados. O que eu queria era um Portugal com um povo culto capaz de escolher e de exigir.

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Também não sei o que fazer. Tenho 44 anos, sou professor e português. À idade não consigo cortar nem fazer o tempo andar para trás. Acho que não consigo arranjar emprego se deixar de ser professor. Afinal, também investi muito tempo, dinheiro e esforço na construção do meu percurso académico. Se este pessoal mais novo não consegue emprego, que uso das minhas competências será valorizado fora do meio académico? E, sou português. Até que nem é tão mau ser português, mas não consigo deixar de pensar que nunca quis sair e ser emigrante. Este é o meu país! É aqui que estão os que eu conheço, a família, os amigos, as raízes.

Não sei o que fazer quanto à reforma. É certo que ainda falta. Afinal, tenho só 44 anos e pelo andar da crise vamos ver onde vai parar a idade da reforma. Mas, vamos também ver onde vão parar as reformas com tanto desvario governamental que delapida os recursos. Bem, talvez não chegue à idade da reforma. Mas, e se chegar como faço? Com este salário, não dá para poupar muito e as perspectivas começam a apontar para reformas mais simbólicas que reais. Penso nisso e penso em aplicar as minhas poupanças. Mas, onde? Em ações do BES? Da Portugal Telecom? De qual das empresas do tal PSI 20 que estão (quase) todas sedeadas no estrangeiro (para fugir aos impostos) e sobre cuja gestão não tenho qualquer influência? Tenho pouco mas é meu, pelo menos por enquanto. Enfim… desabafei, mas continuo sem saber se sou só eu que me sinto enganado, pessimista e sem saber o que fazer.

1http://resistir.info/e_rosa/desinvestimento_educacao.html


 

Crónica de Manuel Portugal | setembro 2014 | canal-e.pt

 

 

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  • Nuno
    2 Setembro 2014 at 17:33 - Reply

    Não és só tu. Somos 2, 3,…, tantos! E nós, portugueses, temos também outra característica: a esperança (que é bastante parecida com ‘fé’). Portanto, temos esperança que algo mude e que seja valorizada a educação. Que os professores deixem de ser autómatos a debitar matéria e tratar de procedimentos burocráticos e possam, por fim, fazer aquilo que querem e que é útil para o país: formar melhores cidadãos! Mais competentes, mais exigentes, com um melhor futuro. Um dia, talvez um dia…

  • Ana Guerra
    7 Outubro 2014 at 6:28 - Reply

    Grande homem com as palavras certas…
    Parabéns